A FEIRA DE S. MIGUEL

Minha Penela amada, castelo de montanha, pedra e granito poligonal, adaptado à
escarpa de quase 100 metros, que te mantém altaneira através dos séculos. Dez?
Nove ?- não importa. Para nós que te amamos serás sempre menina e moça.
Mantendo usos, costumes e tradições. Mais um S. Miguel se passou. Diferente,
muito diferente daquela feira que D. Duarte criou já no 2º quartel do século
XV, (1433) feira franca, onde não se pagavam quaisquer impostos para ali
poderem vender, mas que se mantém ininterrupta até aos nossos dias. Certamente
que nos nossos dias Feiras Francas, só existem no nome. A nossa, já era
diferente mesmo há 70 anos quando ali ia, pela mão de minha mãe. Mas recordo
muito bem como era. Sempre no dia 29 de Setembro, sem alteração de data,
fazia-se dentro da vila, e todas as ruas viviam aquele dia de festa. A Rua
principal, desde o começo, que ia da casa do Freire Gravador até à Praça,
enchia-se de réstias de cebolas, alhos e couves para plantar, vindas das áreas
de Condeixa para ali serem vendidas, depois, a partir do Posto da GNR de um
lado e do outro, as mulheres de Montemor, não tinham mãos a medir fritando o
peixe do rio, em tabuleiros de lata, com uma fogueirinha de cavacas, e
vendiam-no enfiado pelos olhos, numa verga de vime, fazendo a delícia dos que
iam à feira, e que, nas saudosas tabernas da Ti’Amélia, da Ti’Maria da Praça,
da Ti’Olinda Brásio, do Ti’Joaquim do Redolfo, no Ti ‘Manel Vaz, no Henrique
Pança, ou no Diniz, o saboreavam com pão de segunda, e uns bons copos de vinho
da nossa região. Uma delícia!! A Praça, abarrotava de tendas de tecidos
bonitos, mas bem cuidados, de roupa interior e meias. Bonitas tendas de ouro,
em exposição : um cordão, um fio, um anel, ou um relógio, comprava-se no S.
Miguel, e ninguém tinha receio de ser roubado. Tendas de bonecas feitas de
papelão que depressa se desfaziam, bastava apanharem chuva ou lavarmos-lhe a
cara. Mais tarde, apareceram miniaturas em plástico, vestidas de nazarenas,
eram a alegria das meninas. Para os rapazes havia carrinhos de lata ou de
madeira, flautas ou cornetas, e piões. No tempo em que todos os casais tinham
pelo menos três ou quatro filhos imagine-se a alegria para eles nesse dia.
Porque um brinquedo, só se comprava no dia de S. Miguel, depois de venderem as
nozes, ou outros produtos agrícolas. Vendiam-se também tamancos, botas
grosseiras e botinas (um pouco mais finas que as botas) Ao cabo da praça,
artigos de madeira, bancos, mesas, malhos, ancinhos, cangas, etc, poceiros
cestos, e varas compridas de castanheiros, para varejar a azeitona, uma riqueza
das nossas terras. Seguia-se a feira das nozes. Largas centenas de quilos, que
carros puxados por bois, ou carroças puxadas por burros, para ali haviam levado
de madrugada, eram transacionadas e carregadas em camionetas. As merendeiras,
as argolas, e os tremoços eram as guloseimas da feira. E o estica-larica…
Lembram-se ? Uma espécie de chupa-chupa…E o vendedor gritava: Olha o estica!!
Comprava-se ali também a literatura de cordel, que tanto apreciava. A Vida de
Vicente Marujo, a Pastorinha, o Zé do Telhado, o Borda d’Agua, etc. De dia, não
havia outro barulho além do característico da feira,. Dª Micas, venha cá!!!
Olhe estas meias! Meias de cordão, grossas para o frio, bonitos lenços de
cachiné , feitos em Portugal, e os xailes de oito pontas, de merino ou os
xailes de fitas, lindos, um luxo naquela época. Mas à noite, havia teatro, ou
um ranchinho regional, ou até mesmo um bailarico abrilhantado pela Eugénia
Lima, Albino Martins, ou pela Prata da Casa, no nosso velho Clube sito por baixo
da Câmara Municipal, mais tarde no atual Clube Penelense, onde as mães